O Alimento da Alma

As “borboletas” na barriga tiram a vontade de comer. É a primeira vez que vão subir a palco. Para trás ficaram uns quantos meses de ensaios. Gritam pelo nome da escola. Os professores dizem que está quase na hora. Vestem-se. Maquilham-se. Voltam a olhar para o guião do teatro. Fazem uma última audição das músicas que servem de banda sonora aos passos de dança. Afinam instrumentos. Preparam os pincéis, as tintas e os sprays. Lá fora, a claque está pronta para entrar. Vão até à última ponta da cortina. Veem os pais, os avós, os amigos, os professores (aqueles de que gostam e de que não gostam) e os funcionários da escola. Abre a cortina. O espetáculo vai começar.

Esta é só uma das dezasseis noites de festival artístico que a Associação Escolíadas promove por ano. Milhares de jovens de Aveiro, Coimbra e Viseu têm hipótese de pisar quatro das salas de espetáculos da região centro. São oriundos de escolas secundárias e profissionais, públicas ou privadas, destes três distritos de Portugal. É tudo feito por alunos, professores e funcionários. A Escolíadas trata apenas de fornecer os meios técnicos para que os artistas possam experimentar uma coisa que carece na educação em Portugal: artes.

Escola + Olimpíadas = Escolíadas

Teatro, música e/ou dança, pintura, cultura geral e claques. São as artes performativas, plásticas e gerais que cada escola tem que apresentar na sua participação deste festival artístico. Por cada estabelecimento de ensino estão em cima de palco, no máximo, 23 pessoas. Cá em baixo, a apoiar (mas também a ser avaliados), estão os alunos que compõem a claque. 52, no máximo. São dinâmicas que fogem muito aos eventos que o Centro Cultural de Ílhavo, o Teatro Académico Gil Vicente, o Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz ou o Pavilhão Multiusos de Viseu costumam receber.

Este conceito de educação não formal começou há quase 25 anos. Em 1990, ciente das “lacunas artísticas e sociais” das escolas do concelho da Mealhada, o presidente da Associação Escolíadas, Cláudio Pires, propôs a ideia a seis escolas da zona.

Ao longo dos anos o conceito foi crescendo. Cláudio diz que “mais do que a qualidade artística” é a componente sócio-educativa do projeto que o alimenta. “O aluno descobre o homem e o professor descobre o jovem”, fazendo o ambiente escolar mudar por completo. O sociólogo Claudino Ferreira, em entrevista ao jornal PÚBLICO, referiu que “é preciso que se pense como é que a relação com as artes nas escolas pode ser motivadora para os estudantes se interessarem”.

Currículos escolares

A 7 de novembro de 2013, o Secretário de Estado da Cultura, Barreto Xavier, disse, em nome do Ministério da Educação e da Ciência, que o governo “vai continuar a reforçar, a incentivar e a apoiar programas de carácter cultural e sobretudo a valorizar os conteúdos de temática cultural nos programas, metas e orientações curriculares, manuais escolares e outros recursos didáctico-pedagógicos”.

Atualmente, os currículos do segundo ciclo do ensino básico em Portugal oferecem 90 minutos semanais de Educação Musical, de Educação Visual e de Educação Tecnológica. No terceiro ciclo do ensino básico os currículos sofrem uma redução: durante o 7º e o 8º ano, 45 minutos semanais durante meio ano letivo (a outra metade cabe às Tecnologias de Informação e Comunicação [TIC’s]), de Teatro, Música, Dança ou Artes e 90 minutos de Educação Visual. No 9º ano, saem as artes performativas (e as TIC’s), dando os seus 45 minutos à Educação Visual.

No primeiro ciclo do ensino básico existem as Atividades de Enriquecimento Curricular, cuja oferta formativa fica a cargo dos municípios e das escolas. Já no ensino secundário, a menos que seja um curso profissional dedicado às áreas, não existe qualquer tempo letivo dedicado às artes performativas ou plásticas.

A formação de públicos

Com as Escolíadas não se pretendem formar atores, atrizes, dançarinos, dançarinas, pintores, pintoras, músicos… Pretende-se, sobretudo, formar públicos. A consciência cultural, lê-se na missão da associação, é alimentada através “cidadania e espírito de grupo”, criando o gosto “passivo e ativo pelas artes em geral”.

O Eurobarómetro de 2013 dedicado à cultura revela que apenas 6% dos portugueses inquiridos tem uma atividade cultural regular. Portugal encontra-se no fundo da tabela europeia, ao lado da Bulgária e da Roménia. Bem longe da Suécia (43%), da Dinamarca (36%) ou da Holanda (34%).

A falta de poder de compra, provocada pela crise, explica, em grande parte, o baixo acesso ao cinema, teatro, espetáculos de dança, literatura ou música. No entanto, para as ex-ministras da Cultura, Isabel Pires de Lima e Gabriela Canavilhas, bem como para alguns dirigentes culturais do país, o problema maior está na falta de literacia cultural dos portugueses.

O atual vereador da cultura da Câmara do Porto, Paulo Cunha e Silva, diz ao PÚBLICO que “é na infância que se devem começar a criar hábitos culturais e isso não acontece”. O presidente da Culturgest, Miguel Lobo Antunes, afirma que “para que os portugueses sejam mais cultos, é claro que a educação, os meios de comunicação e as políticas culturais, têm uma importância fundamental mas também é importantíssimo o papel desempenhado pelos teatros, pelos centros culturais, pelos programadores, pelos artistas, pelos pais, pelos mais velhos, pelas pessoas, que podem contagiar outras”, refere ao mesmo jornal.

Do extinto ministério da Cultura ouvem-se as vozes das ex-ministras Isabel Pires de Lima e Gabriela Canavilhas. Pires de Lima tece fortes críticas à sociedade e à sua faceta comercial: “continuamos presos a modelos de desenvolvimento que privilegiam sobretudo aquilo que é imediatamente rentável e aquilo que decorre do mundo do que é contabilizável”. “É a invisibilidade da Cultura que faz com que seja tão difícil aos políticos, empresários e sociedade civil investirem na área”. Gabriela Canavilhas vê a educação como solução: “os indicadores da Cultura estão sempre ligados aos indicadores da Educação. Os países onde os hábitos culturais são mais consistentes são aqueles onde os níveis de Educação são mais elevados”.

As cebolinhas

“O que entra na sala de aula é uma cebola: algumas camadas de tristeza, de medo, de inquietação, de rancor, de raiva, desejos insatisfeitos, de renúncias furiosas, acumuladas sobre um fundo de passado humilhante, de presente ameaçador, de futuro condenado. Reparem, vejam-nos chegar, o corpo em transformação e a família dentro da mochila. A aula só poderá começar realmente depois de poisarem o fardo no chão e descascarem a cebola. É difícil de explicar, mas às vezes basta um olhar, uma palavra amiga, um comentário de adulto confiante, claro e estável, para dissolver estas mágoas, aliviar os espíritos, instalá-los num presente rigorosamente indicativo” – Daniel Pennac, in Mágoas da Escola´

Fomos ouvir duas escolas: A Secundária Dr. Jaime Magalhães Lima (do Agrupamento de Escolas de Esgueira) e a Profissional de Aveiro, ambas da cidade que empresta o nome à última. O que as diferencia? A primeira ganhou as duas últimas edições do festival artístico Escolíadas. A segunda volta ao concurso depois de quatro anos sem participar.

Este processo de “descascar a cebola” (de que Daniel Pennac fala) chega pelas mãos da Professora Conceição Limas, do Agrupamento de Escolas de Esgueira. “Ganhamos quando se cultivam as relações humanas e deixamos de ter apenas relações em termos formais. Crescemos enquanto pessoas. O facto de ficar a conhecer os alunos de um modo que não conheceríamos em sala de aula é o gozo grande das Escolíadas”.

Professora de Português e Francês, acompanha os alunos neste processo “escoliástico” desde que, também, dá aulas de teatro. Refere que “por causa dos conteúdos a veicular e dos tempos [letivos] contados” não pode “dar-se ao luxo de perder tempo”.

Apesar de conseguir captar “algumas facetas” dos alunos durante as aulas, não consegue chegar até eles do modo que queria devido ao número de alunos por turma. “É pena porque os alunos podiam ir muito mais longe se os professores tivessem tempo para os ouvir plenamente”.

A professora tece forte críticas a este sistema de ensino: “quando um professor deixar de ser pedagogo pode passar a ser substituído por um computador na perfeição. E na altura que eu me deixar de me preocupar com os alunos posso reformar-me porque não tenho mais nada a fazer no ensino”.

Elsa Dinis, Auxiliar de Ação Educativa, na mesma escola, gosta do que faz porque consegue “ver as modificações constantes nos alunos”. A “Dona Elsa”, como todos a tratam na ‘Jaime’, diz que a participação nas Escolíadas fez com que pais (dos alunos) e escola se aproximassem mais. “Sai realçado o impacto escolar”.

Na Escola Profissional de Aveiro falámos com alunos. Foi uma das exigências da escola para conceder a entrevista porque “afinal o projeto é deles”. Miguel Duarte (22 anos), Liliane Magalhães (18 anos) e Sofia Carmo (17 anos) são alunos do Curso Profissional de Animador Técnico Sócio-Cultural.

Sentem as Escolíadas de forma diferente “porque estão num curso vocacionado para as artes”. Apesar disso, diz Miguel, “a responsabilidade de carregar um emblema ao peito, como o da EPA é muito grande” porque “atuam para mais de 500 pessoas”, referindo-se ao Centro Cultural de Ílhavo, sala onde a escola atuou.

“Aqui são os alunos que fazem tudo, desde a construção das equipas até à conceção do tema”, diz Sofia. “Os professores só participam porque é obrigatório, apesar de nos darem algumas orientações durante as aulas”. Nas Escolíadas é obrigatória a presença de dois professores em palco. O mentor do festival, Cláudio Pires, pensa que “só assim funciona a relação professor/aluno”.

Na Profissional de Aveiro, dizem os três alunos, a relação entre estudantes e docentes “é bastante informal”. Há “muito respeito”, “muita cumplicidade” e “muita brincadeira”. Mas quando “é para trabalhar também sabemos manter a distância”, diz Liliane.

Para estes jovens o projeto significa “trabalho”, “união” e “muitas noites sem dormir”. Signifique o que significar, Sofia finaliza dizendo: “é muito mais do que aquilo que o projeto é no final”.

Fome de arte

“Uma sociedade que se preocupa com a tecnologia e com o avanço económico, que não dá valor àquilo que o ser humano tem de mais profundo, que é aquilo que o perpetua na sua capacidade de criar, é uma sociedade que está a caminhar no sentido inverso”, diz a Professora Conceição Limas, da Jaime Magalhães Lima. “Das civilizações clássicas ficou-nos imensa coisa e não foi só a tecnologia ou os avanços matemáticos e científicos que se fizeram”.

A docente refere que nas Escolíadas não tem necessidade de medir ou avaliar. “As notas medem apenas a faceta académica do aluno deixando a globalidade de lado. [Neste projeto] Os alunos mostram o seu todo. É muito mais enriquecedor para um aluno mostrar-se no seu todo sem ser constantemente avaliado”.

Gostava de ver o projeto crescer a nível nacional, para que todos os alunos e professores portugueses tivessem acesso a um mecanismo cultural, “dinamizador de boas práticas educativas, [práticas essas] que formam os cidadãos do futuro”.

Também Miguel Duarte, da Escola Profissional de Aveiro, gostava de ver as escolas portuguesas “competir com outras de países estrangeiros”. Cláudio Pires diz-nos que, neste momento, a associação é candidata a fundos comunitários. Este fundos servirão para “trazer escolas da Alemanha, França, Itália, Noruega e Roménia” a conhecer e participar no evento. Desta candidatura faz parte um “Fórum Europeu para as Artes na Educação”. Para já, e sem certezas de nada, a edição de 2015 (a vigésima sexta) está comprometida devido à falta de apoios públicos e privados.

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