“Queremos subir de divisão!”

Eugénio Bartolomeu, treinador de andebol do Sport Clube Beira-Mar, faz um balanço positivo da temporada que marcou o regresso da modalidade ao clube. Em entrevista ao “Notícias à Beira-Mar”, o técnico auri-negro realça as virtudes da primeira época e traça alguns dos objetivos futuros do andebol beiramarense.

Qual é o balanço da primeira temporada?

O balanço é muito positivo, especialmente se nos lembrarmos que em Setembro partimos do absoluto zero e no espaço de um mês tínhamos uma estrutura montada. Temos uma secção com dirigentes fantásticos que nos habituaram à ideia de que os impossíveis são, afinal, atingíveis. No que respeita ao aspeto competitivo esta época foi igualmente positiva, podíamos ter chegado mais longe, especialmente porque perdemos três jogos por um golo contra adversários diretos. De qualquer modo os atletas foram fantásticos.

Com certeza, foi discutindo com os jogadores a temporada e os jogos. Qual é o balanço deles?

Os objetivos da temporada foram delineados e apresentados aos atletas desde o início. Construir uma equipa que seja o futuro, a médio prazo, do clube era o principal. Para isso estabelecemos como primeira meta a evolução jogo a jogo, sendo a mesma atingida e refletida nos resultados obtidos.

O 4º lugar é uma posição que satisfaz a equipa?

Obviamente nenhum dos elementos deste grupo de trabalho ficou totalmente satisfeito, pois creio que todos sentiram que nos faltou muito pouco para atingirmos o apuramento (três primeiros lugares) e aí houve alguma tristeza. Saímos de todos os jogos com a sensação que podíamos ter feito melhor, mas tendo a noção de que não tínhamos uma margem muito grande para o conseguir. Diria que, de acordo com as limitações ao nível do reduzido número de sessões de treino semanal, espaço de treino e elevado número de lesões, todos tínhamos consciência que estivemos a jogar no nosso limite máximo.

Qual foi o foco desta temporada?

À partida existiam algumas situações que considerámos fundamentais: desde logo transmitir aos atletas a importância, o valor e a honra de representar o Sport Clube Beira-Mar; transmitir a todos que fazer ressurgir o andebol do clube é algo de uma magnitude extrema e a passagem desta mística, deste sentimento foi o primeiro passo. A partir daí trabalhar esta equipa para ser a estrutura do grupo que constituirá o futuro a médio prazo do andebol do clube. Acompanhando tudo isto, a criação de uma estrutura na secção que fosse o suporte e a alavanca para dar apoio ao início do funcionamento de toda esta máquina e aí sinto que fomos campeões nacionais!

O que se pode retirar desta primeira competição para o futuro?

Muitos ensinamentos, desde logo pelo desconhecimento que praticamente todos tínhamos deste campeonato, ficámos a conhecer o nível de andebol praticado, as equipas mais fortes e as suas potencialidades e também o nível de arbitragem. Foi claramente um ano de conhecimento que nos vai ser muito útil na próxima temporada.

Os jogadores vão manter-se no Beira-Mar? Os adeptos podem contar com alterações no plantel?

Posso afirmar que a preparação da próxima época já está em marcha desde janeiro! Podendo ainda descansar os Beiramarenses, os atletas que pertencem à estrutura base da equipa e que mais se destacaram nesta época vão manter-se no plantel. Obviamente irão ser introduzidas alterações, uma vez que na próxima época pretendemos ter uma equipa mais equilibrada nas diversas posições. Bem como pretendemos que seja uma equipa a lutar por outros objetivos.

A equipa jogou em vários pavilhões para os jogos “caseiros”. Isso afetou, de algum modo, a equipa ou a massa adepta?

Os jogos caseiros nunca existiram, porque em termos de espaço sentimos sempre que estávamos a jogar fora, pois jogámos em vários pavilhões, nos quais nunca treinámos, por isso estávamos praticamente em pé de igualdade com os adversários. Esta situação claramente afetou o rendimento da equipa, mas nem esta limitação, ou nenhuma outra, foi ou será apontada como responsável para um melhor ou menor rendimento. Agora, apesar de não termos a nossa casa, em termos de ambiente estivemos sempre ‘hiper’ acarinhados, pois tivemos sempre uma crescente moldura humana a acompanhar-nos que, de jogo para jogo, nos deixava radiantes. Isto para além do, já indispensável, apoio dos Ultra Auri-Negros, os quais passaram de claque a uma extensão da própria equipa, com a existência de uma química assinalável.

Os associados e adeptos do Sport Clube Beira-Mar reagiram bem ao regresso do andebol?

A reação foi extremamente positiva. O andebol sempre foi uma das principais modalidades do Clube, uma das que maior ligação tinha aos associados, pelo que o seu regresso foi sentido por todos de um modo muito positivo. Contudo, há ainda um percurso muito longo a percorrer, desde logo trazer para o seio da secção alguns notáveis e históricos do andebol Beiramarense. Gente de valia extrema, a qual, depois de ter sofrido uma das maiores desilusões da sua vida, com a extinção da secção, precisa agora de sentir que este projeto não é uma ilusão que rapidamente se esfumará. Estas pessoas precisam de sentir que este projeto é sustentado e que estamos a estruturar o futuro de um modo equilibrado e progressivo.

A próxima competição é em abril. Como é que se vão preparar até lá?

Após o final do campeonato demos uma semana de folga ao plantel. Partindo daí vamos iniciar um ciclo de trabalho não só com vista à participação nessa competição, mas também um trabalho de pré-preparação da próxima época, onde colocaremos em prática alguns princípios organizacionais e técnicos que pretendemos implementar.

O que se pode esperar da equipa nesse torneio?

Esse torneio será organizado pela Associação de Andebol de Aveiro e contará com a participação de todos os clubes que nele quiserem competir, independentemente da divisão onde militem, ou seja, à partida teremos adversários bastante fortes, de divisões acima da nossa, o que será mais um excelente momento de aprendizagem e de evolução.

Os adeptos vão poder ver algumas partidas amigáveis até ao torneio?

Iremos realizar partidas amigáveis com equipas da nossa região, contudo estas serão sempre realizadas no reduto dos adversários, uma vez que o pavilhão onde treinamos habitualmente não tem as condições necessárias, ao nível das dimensões, para as efetuar. Apesar disso e desde que as equipas opositoras não se oponham, divulgaremos em tempo oportuno locais e datas desses amigáveis.

objetivos traçados para a próxima época?

Sem rodeios afirmo que os objetivos para a próxima época estão traçados! Queremos subir de divisão!

Jogaram algumas partidas no Pavilhão Aristides Hall, na Universidade de Aveiro. O complexo pode vir a ser a casa do andebol do S.C. Beira-Mar?

Como já referi a próxima época já está a ser preparada, só dessa forma podemos ser peremptórios no que respeita aos nossos objetivos. Uma das principais prioridades é um pavilhão para treinar e jogar. Necessitamos de treinar num pavilhão com dimensão oficial, que nos possibilite um tipo de trabalho, a vários níveis, que atualmente não temos possibilidade de colocar em prática. Se possível, que esse pavilhão onde treinarmos seja também a nossa casa para os jogos. O Pavilhão da Universidade possui infraestruturas que nos permitem desenvolver um excelente trabalho, contudo, neste momento não posso afirmar que será essa a casa do andebol. Assim que todas as diligências estiverem concluídas informaremos qual será o pavilhão/oficina da próxima época.

O clube tem condições para regressar à elite do andebol português? O que falta?

Desde logo Pavilhão. Esta é certamente a condição base para termos estabilidade para estruturar um trabalho sustentado e de qualidade. Depois, outra condição base é o desenvolvimento da nossa formação, com a qual não quisemos perder tempo e dela fizemos um desígnio, de modo a começar ainda esta época, o que aconteceu. Neste momento demos início à nossa equipa de Bambis, à qual, na próxima época pretendemos acrescentar mais um a dois escalões. Mas toda esta estrutura deverá ter o suporte de empresas e de outras entidades que sejam parceiras e que com a secção/clube estabeleçam laços de cooperação mútua.

Como foi regressar à modalidade?

Um misto de emoções, com o reviver de acontecimentos que fizeram parte da minha vida durante 23 anos. Foi muito positivo verificar que quem continua na modalidade tem por nós estima e consideração. É mesmo muito gratificante. Obviamente que este regresso nunca teria acontecido sem o apoio da minha família, a qual percebeu que em jogo não estava apenas o andebol, estava o Sport Clube Beira-Mar.

Quais são as grandes mudanças no jogo desde 2010 até hoje?

Nos quatro anos em que estive afastado houve algumas mudanças pontuais nas regras de jogo, mas a essência do jogo, em termos técnicos, não sofreu grandes oscilações. Para além de ter voltado aos pavilhões para observar jogos, fui também espectador atento do Mundial do Qatar que se realizou no mês passado. Aí confirmei que as alterações são pontuais e naturais numa modalidade em constante evolução.

Os jogadores sentem o clube?

Terei a veleidade de dizer que como nenhum outro. Para os atletas serem reconhecidos na rua e abordados por adeptos acerca dos jogos; terem uma claque que dá um ambiente nunca antes sentido num jogo de andebol da nossa região. Em cada jogo em casa entrar ao som do hino do Clube e tudo isto aliado ao orgulho de serem jogadores do Sport Clube Beira-Mar é algo de muito importante para todos. Em cada jogo todos demonstram um sentimento de responsabilidade extra por ter aquela camisola vestida. Tem um peso diferente.

Como perspetiva a modalidade para o futuro?

Prevejo que a velocidade de jogo tenha tendência para continuar a evidenciar-se, provavelmente com um maior desenvolvimento técnico em termos individuais, tornando o jogo menos elaborado em termos coletivos e um pouco mais imprevisível em termos individuais. Isto claro, sem que essas ações mais individuais não pressuponham posicionamentos coletivos delineados. Em suma, prevejo que a modalidade seja cada vez mais atrativa e ainda mais espetacular.

Como é voltar a sentir as cores auri-negras dentro de campo?

Tive duas sensações imediatas: arrepio na pele e as incontroláveis lágrimas a bailar nos olhos. O Beira-Mar sempre foi o meu Clube e o andebol sempre foi a modalidade mais acarinhada em minha casa. Sou daqueles que sofreram bastante com a extinção da secção e fico muito contente por ter a possibilidade de ajudar ao seu regresso. Toda esta satisfação apenas é acompanhada negativamente pela ausência da pessoa que mais radiante e mais satisfeita se sentiria neste momento, o meu saudoso Pai [o radialista beiramarense, Tozé Bartolomeu] •

Artigo originalmente publicado no suplemento do Diário de Aveiro, “Notícias à Beira-Mar”.

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